sábado, 18 de fevereiro de 2012

O riacho e a mente







Um dia, Buda ia passando por uma floresta, era um dia quente de

verão e ele estava sentindo muita sede. Disse então ao seu discípulo:

-Volta para trás. Nós passamos por um pequeno riacho a  apenas cinco ou

seis quilômetros. Traz-me um pouco de água - leva a minha tigela. Estou

sentindo-me cansado e com muita sede.

Ele já estava velho. O discípulo voltou para trás, mas quando lá

chegou, tinham acabado de passar alguns carros de bois pelo riacho,

enchendo-o de lama. As folhas secas, que tinham assentado no fundo,

estavam agora boiando na superfície; já não era possível beber esta

água - estava muito suja. Regressou de mãos vazias e explicou:

- Mestre, vai ter que esperar um pouco. Eu vou à frente. Disseram-me

que uns três ou quatro quilômetros mais à frente há um grande rio. Vou

lá buscar a água.

Mas Buda insistiu e pediu:

- Volta para trás e traz a água daquele riacho.

O discípulo não conseguia perceber a insistência, mas, se o mestre

dizia, ele tinha que obedecer. Mesmo vendo o absurdo daquilo - tinha

que voltar outra vez a andar cinco ou seis quilômetros, sabendo que a

água não prestava para beber. E quando já ia se afastando, Buda disse-lhe:

- E não voltes para trás se a água ainda estiver suja, tu senta-te

simplesmente quieto na margem. Não faças nada, não entres no riacho.

Senta-te quieto na margem e observas. Mais cedo ou mais tarde a água

vai ficar limpa outra vez e então podes encher a tigela e regressar.

O discípulo lá foi. Buda tinha razão: a água estava quase limpa, as

folhas tinham-se ido embora, a poeira tinha assentado. Mas ainda não

estava absolutamente limpa, por isso ele sentou-se na margem e ficou

observando o riacho a correr, pouco e pouco, o riacho tornou-se

cristalino.

Então o discípulo regressou a dançar. Ele tinha compreendido porque

é que Buda estava insistindo tanto. Havia nisto uma determinada

mensagem, e ele tinha compreendido a mensagem. Deu a água a Buda,

agradeceu-lhe e tocou-lhe nos pés.

Buda perguntou:

- O que é que estás a fazer? Eu é que te devo agradecer por me teres trazido a água.

- Agora consigo compreender - disse o discípulo - primeiro, eu

fiquei zangado; não demonstrei, mas estava zangado porque era absurdo

voltar para trás. Mas agora entendo a mensagem. Era disto que eu

precisava realmente neste momento. O mesmo acontece com a minha mente -

ao sentar-me na margem daquele riacho, fiquei ciente de que o mesmo se

passa com a minha mente. Se eu saltar para dentro do riacho, vou

deixá-lo sujo outra vez. Se eu saltar para dentro da minha mente,

cria-se barulho, mais problemas começam a vir de cima, para a

superfície. Ao sentar-me na margem, eu aprendi a técnica. Agora vou

sentar-me também ao lado da minha mente, a vê-la com toda a sujidade e

problemas e folhas velhas e mágoas e feridas, memórias, desejos. Se me

preocupar, vou ficar sentado na margem à espera do momento em que tudo

fique limpo.

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