
Filmaço. Essa é a melhor definição que pude encontrar em uma palavra, para descrever o filme de Fernando Meirelles baseado na obra honônima de José Saramago, como já publiquei no blog, sou um péssimo resenhista (afinal não sou nada imparcial com as coisas que gosto) seque abaixo a resenha da Angélica Bito retirada do site cineclick.uol.com.br
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Por Angélica Bito
criticas@cineclick.com.br
Fernando Meirelles tinha um grande desafio em mãos quando foi contratado para dirigir Ensaio Sobre a Cegueira: traduzir em imagens uma história magistralmente descrita em palavras por José Saramago num de seus mais reconhecidos livros. Narrada com destreza única pelo escritor português, é a primeira vez que ganha as telas de cinema. O livro, tão particular em narrativa e desenvolvimento, nunca havia sido adaptado ao cinema por isso e também pelo fato do escritor ter confiado a estes produtores a tarefa. Sorte a dele e a nossa, pois Meirelles supera muito bem o desafio neste seu novo trabalho, apresentando uma adaptação no mínimo digna e respeitosa do livro na qual se baseia.
Os personagens de Ensaio Sobre a Cegueira não têm nome como uma forma do autor em negar qualquer tipo de vínculo que possam ter com quem toma contato com a história, único compromisso da obra. Ela começa quando um homem - o Primeiro Cego (Yusuke Iseya) - deixa de enxergar em meio ao trânsito de uma metrópole (quem mora em São Paulo é capaz de enxergar as referências e locações, mas a idéia é ambientar a história numa grande cidade sem identificação, assim como os personagens). Um homem (Don McKellar, também autor do roteiro), que mais tarde é revelado como o Ladrão, o leva para casa. Acompanhado da esposa (Yoshino Kimura), o Primeiro Cego é levado para uma consulta a um oftalmologista (Mark Ruffalo); logo na sala de espera, já temos contato com os personagens que farão parte do restante da narrativa: a Rapariga dos Óculos Escuros (Alice Braga), o Velho de Tapa-Olho (Danny Glover), o Menino de Óculos (Mitchell Nye) e a Recepcionista (Maury Chaykin). Sem nome nem passado, os personagens são revelados ao espectador por meio de seus atos. O que importa é como se comportam em meio ao caos, já que é numa situação como estas que as máscaras caem efetivamente. Ninguém está olhando mesmo.
Aos poucos, o pequeno núcleo na sala de espera do Médico começa a demonstrar a mesma cegueira branca contraída pelo Primeiro Cego. Um a um, todos deixam de enxergar, passando a ter a sensação de estar "nadando num mar de leite", como um dos personagens descrevem. Caem por terra todas as distinções de classe ou poder. Exceto uma pessoa: a Mulher do Médico (Julianne Moore). Rapidamente, o que era um caso isolado é levado à estância de epidemia e o governo é obrigado a transformar um antigo manicômio num local de quarentena, onde os atingidos pela epidemia são isolados para que ela não se espalhe, pelo menos até que a situação seja controlada. A Mulher do Médico, única a enxergar, é quem guia (ou tenta, no caso) os personagens pela jornada que acompanhamos em Ensaio Sobre a Cegueira.
O filme não se propõe a responder, mas sim questionar, especialmente a natureza humana. Por meio da montagem e do trabalho de desgaste visual do figurino e cenários, Ensaio Sobre a Cegueira deixa claro como a humanidade tende a caminhar ao caos uma vez que não existem mais regras nem moral. Quando todos deixam de enxergar, é como se ocorresse uma implosão dentro da sociedade e o caos é estabelecido, não somente junto aos infectados, mas também junto a quem tenta não ficar cego. Neste caso, cabe questão da personagem tão bem interpretada por Julianne Moore: neste caso, pior é ser o único a ver.
Muitas passagens violentas e degradantes do livro de Saramago são traduzidas com sucesso pelas imagens de Meirelles. O diretor trabalha o tempo inteiro com a falta de foco e o enquadramento das imagens, que, à primeira vista, parecem erros, mas estão lá para darem a impressão que as imagens foram captadas por um cego. As cores são ausentes, exceto pelas primeiras imagens, que focam um semáforo mudando de cores. Tons de cinza, branco e bege se revezam na tela no figurino e cenários, dialogando diretamente com a presença intensa de luzes brancas. Ao mesmo tempo, existe um trabalho elaborado fotografia - cuja direção é assinada por César Charlone -, que constrói cenas dialogando com as texturas e transparências dos ambientes.
A fim de criar essa cidade que entra no caos durante a epidemia de cegueira, Ensaio Sobre a Cegueira filma pontos normalmente movimentados de São Paulo num vazio absoluto, o que causa uma estranheza incômoda em quem conhece a cidade. Não que o filme vá funcionar melhor junto a este grupo, mas com certeza esse sentimento que causa ver o Minhocão vazio, por exemplo, contribui para que o espectador sinta o desconforto proposto pelo filme. Desconforto semelhante ao causado por sua primeira exibição mundial, no Festival de Cannes, onde foi recebido com opiniões divididas. Tanto que Meirelles aplicou duas mudanças pontuais para chegar à versão do longa que vemos algo em circuito: a exclusão de uma violenta cena de estupro e a narração do Velho de Tapa-Olho, reduzida a poucos minutos do filme.
Ao ter sucesso na adaptação cinematográfica neste tão difícil livro de José Saramago, Fernando Meirelles não somente vence um desafio, mas mostra novamente por que é um dos melhores cineastas em atividade - independente da nacionalidade
Nenhum comentário:
Postar um comentário